“As pessoas que estão ali, na rua, tem tanto direito de assistir e de ter acesso, como uma pessoa que tem dinheiro pra pagar a entrada de um espetáculo em alguma casa especial de apresentação de teatro e dança. A rua é democrática. É para todos!” (João Vicente, diretor artístico da Lamira). Esse é o conceito da Lamira para definir a relação do público com seu espetáculo de rua “Do Repente”. A montagem, que traz uma mistura do universo popular nordestino, fala de cultura diretamente ao povo: seu elemento chave.

O processo de criação do “Do Repente” inclui pesquisas sobre várias estéticas, como a commedia dell’arte, o uso de máscaras na construção de personagens e a movimentação articulada existente na manipulação de marionetes. A construção estética deste espetáculo é baseada em personagens que se movimentam no contexto da temática. As sequências coreográficas, muito embora se realizem em sincronia, carregam a diferença de serem “assinaladas” pelo persona, pelas características que compõem cada personagem literário atuante na cena.

A poética do espetáculo leva para o público uma mistura instigante entre a música, o teatro e a dança. A peça proporciona uma viagem nas figuras do poeta cantador, do coquista, do glosador, do cordelista e da influência desses elementos na formação da diversidade cultural do Brasil. O espetáculo, que tem 35 minutos de duração, foi estreado em 2012. A montagem já foi apresentada mais de 75 vezes, em mais de 65 cidades brasileiras, em todas as regiões do País.

O espetáculo traz em sua pesquisa de figurinos, características que remetem à ideia do cangaço, do vaqueiro, dos coronéis, entre outros, além de músicas que homenageiam a tradição do repentista, seja ela no coco de embolada, no aboio, na viola, no martelo agalopado ou no martelo perguntado. A peça traz um universo de sonoridades da cultura popular do nordeste, que sem dúvidas, faz parte da construção da identidade brasileira.

A trilha sonora é então recheada da magia da música popular, e se torna um elemento vital para o espetáculo. No roteiro estão canções de Lindalva e Terezinha, Os Nonatos, Mossinha de Passira e Valdir Teles, Galego Aboiador, e Antônio Nóbrega. O enredo inclui também a adaptação do “causo” Matuto Incrementado, de Amazan.

As letras em português carregam o sotaque nordestino, característico do regionalismo, além de palavras que tem significado e oralidade fluentes a essa cultura. Para o público mais próximo desta realidade é um prato cheio em identificação, e é onde os sorrisos das pessoas invadem a cena, representando uma relação crescente que se abre entre o público e os artistas. Além da identificação, para o público brasileiro no geral, pode haver um encontro com características de nossa cultura por eles desconhecidas, o que pode provocar uma grande e agradável surpresa.